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Acessibilidade

Sobre a acessibilidade do portal do Governo

This is an archive post from 13 January 2012.

Foi ontem publicado um artigo no jornal Público a apontar a falta de acessibilidade do website do Portal do Governo. Nesse artigo, são citadas as opiniões de alguns especialistas, incluindo eu próprio.

Apesar do artigo apontar apenas os problemas identificados e não apontar sugestões de melhoria, é natural que alguns leitores achem que estamos apenas a "mandar abaixo" e a "dizer mal" em vez de estarmos calados no nosso canto.

Pessoalmente, custa-me que o artigo tenha apenas os pontos negativos e custa-me estar associado ao grupo de "velhos do restelo" que só dizem mal de tudo e de todos.

Acho que a empresa que desenvolveu o website do Portal do Governo não fez um mau trabalho. A sério. Todos os dias vemos enormes aberrações no nosso browser e ninguém se queixa nem se fazem artigos no jornal.

Mas o problema é que o Portal do Governo é, um site do governo. E como site do governo, tem de cumprir as regras estabelecidas pela resolução do conselho de ministros que obriga a que os websites da Administração Pública sejam compatíveis com a norma A de acessibilidade (os sites transaccionais são obrigados a passar a norma AA).

Quando digo que a empresa que criou o site fez um bom trabalho, refiro-me ao grafismo bastante apelativo, às páginas com conteúdos bastante interessantes (ex: para onde vão os seus impostos) e nada normais àquilo a que normalmente estamos habituados nos sites do estado (aborrecidos e demasiado institucionais). Fizeram também um bom trabalho, pelo menos para tentarem passar nos validadores automáticos de acessibilidade (apenas são detectados pequenos erros). Ou seja, eles pelo menos tentaram, e têm todo o mérito por isso.

Mas faltou-lhes só um bocadinho assim.

E é esse bocadinho que dá origem ao artigo e à onda de protestos pro e contra a falta de acessibilidade do website.

É claro que os problemas que restaram são problemas graves, como a impossibilidade de navegar com o teclado (ou qualquer outro dispositivo não apontador) ou a clara falta de contraste na cor dos textos (idosos e míopes vão ter dificuldade em ler). Mas são tudo pequenas coisas que em menos de 1 hora eram facilmente resolvidas mudando 2 ou 3 linhas no CSS e eventualmente fazendo alguns ajustes no HTML (para melhorar a estrutura dos headings). Isto tudo são problemas que os validadores automáticos remetem para uma validação manual, que ficou por fazer.

E para quem diz que apenas estamos aqui para mandar abaixo, há dois meses atrás fiz uma apresentação sobre como melhorar a acessibilidade de um website mudando apenas alguns pedaços de HTML e CSS. Nessa apresentação estão disponíveis as soluções que faltam para o site do Portal do Governo (infelizmente essa informação não saiu no artigo, apesar de ter sido fornecida) e outras que toda a gente pode aplicar nos seus websites, em menos de 1 hora.

Podem ver a apresentação aqui.

Sobre os comentários que apontam o SAPO como tendo também problemas de acessibilidade, é provável que os tenha, mas tentamos ao máximo fazer cumprir as nossas regras de usabilidade e acessibilidade aos nossos produtos.

Um dos exemplo apontados foi o facto de na homepage do SAPO não ser possível navegar com o teclado. Isso não é verdade. A navegação com o teclado é possível e o feedback é apropriado (damos sempre visibilidade ao link seleccionado). No entanto, por questões comerciais (às vezes o dinheiro fala mais alto), fomos obrigados a fazer "focus" no campo da pesquisa, o que faz com que os "skip-links" (que existem) deixem de ter o efeito desejado. Se clicarem fora da pesquisa e começarem a navegar com a tecla TAB verão os atalhos para as zonas mais importantes da página.

Por isso, todos os dias lutamos para tornar os nossos websites mais fáceis de usar e acreditem que não é fácil porque temos que justificar sempre muito bem as nossas decisões.

Mas nada melhor do que ver um utilizador invisual ou com paralisia cerebral a tentar executar uma tarefa num website, e ver o seu desespero durante 10 minutos a tentar executar uma tarefa que um utilizador "normal" faria em 10 segundos. Isso, meus caros, mudará completamente o vosso ponto de vista quando falarem sobre acessibilidade.

9 comentários

Paulo A. Silva

Paulo A. Silva

13 de Janeiro de 2012, 18:10

Os jornais e media em geral, normalmente não contam a história toda. Basta ver pelas “Gordas” que muitas vezes anunciam polémica, mas no corpo do texto vê-se que é do outro lado do atlântico: um click, uma pageview, muita publicidade…

Quanto ao portal, depois de ver o vídeo de apresentação, quis criar de imediato um movimento.

Registo ou autenticação pelo facebook!
E autenticação com o Cartão do Cidadão?
Mas afinal quem é a autoridade: o Governo Português ou o Mark Zuckerberg.

Quero alertar o webmaster para esse facto e… não encontro nem endereço, nem formulário para o efeito.

Ainda faltam umas coisas.
Vou esperar :D

José Campos

José Campos

13 de Janeiro de 2012, 19:21

Concordo contigo quando dizes que é preciso apontar os problemas numa óptica construtiva, não para “mandar abaixo”, mas para alertar e sensibilizar. Se considerarmos que o impacto da notícia está sempre relacionado com a quantidade de polémica que desencadeia, é natural que o trabalho editorial se tenha focado nos pontos negativos.

Idealmente, soluções concretas para os problemas, como as que apresentas aqui, fazem toda a diferença entre alguém que “manda bitates” e alguém que sabe do que fala e tem experiência no terreno, que mete as mãos na massa.

Também gostei de conhecer o teu posicionamento sobre o equilíbrio entre o “ideal” e “possível”. Quem trabalho nisto há algum tempo, e ainda mais no nosso contexto português, sabe como as coisas funciona na prática: um jogo constante para encontrar soluções de compromisso.

Já tive um contacto com a Grand Union (empresa que desenvolveu o site em questão), embora indirecto. E fiquei muito bem impressionado com a qualidade e o profissionalismo deles. Gostava de um dia poder ter um contacto mais directo com essa empresa, pois acredito que está acima da média no que toca à sensibilidade para questões ligadas à usabilidade e acessibilidade.

Força. E venham mais artigos destes :)

João Pedro Pereira

João Pedro Pereira

13 de Janeiro de 2012, 19:32

Ivo, não é papel dos jornalistas avaliar o site (não iria tecer considerações sobre o grafismo, por exemplo). E as novas funcionalidades já tinham sido descritas na notícia do lançamento (que tem link a partir da notícia sobre a acessibilidade). E, por fim, nunca cabe aos jornalistas (não numa notícia, pelo menos) dar sugestões de melhoria.

O caso aqui é simples. O portal tem falhas e contraria o disposto numa resolução do conselho de ministros. A situação é confirmada e descrita (o Governo podia ter respondido; não o fez). As sugestões de melhoria, quando muito, decorrem implicitamente do próprio facto de os problemas serem apontados: cumprir a resolução e rectificar as falhas.

De resto, hoje melhoraram alguns pontos e criaram esta página: http://www.portugal.gov.pt/pt/acessibilidade/declaracao-de-conformidade-parcial.aspx

Ivo Gomes

Ivo Gomes

13 de Janeiro de 2012, 20:58

João, o meu post não foi para dizer mal do teu artigo, foi apenas para esclarecer os trolls que dizem que os especialistas citados são especialistas da treta. E para complementar com mais alguma informação que poderá ser útil para quem quer saber um pouco mais sobre o tema.

Lopo

Lopo

13 de Janeiro de 2012, 20:09

Ao menos usassem o OpenID que sempre era controlado pelos próprios, se assim o quisessem.

Ivo Gomes

Ivo Gomes

13 de Janeiro de 2012, 21:00

O OpenID tem outros problemas próprios de usabilidade que precisam de ser resolvidos antes de ser adoptado como login corrente.

João Pedro Pereira

João Pedro Pereira

13 de Janeiro de 2012, 22:25

Pois, trolls, é o meu dia-a-dia… Gosto sobretudo dos que dizem que são apenas pormenores de fácil resolução – o que seria mais uma razão para estarem implementados de início. Abraço

Rogério Pereira

Rogério Pereira

16 de Janeiro de 2012, 11:45

Ivo, o teu último parágrafo diz tudo. Só tendo a experiência de ver uma pessoa com deficiência visual usando um site para entender o tamanho do problema.

Fiz um post em meu blog falando sobre a experiência que tive em um teste de usabilidade e acessibilidade.

Veja o post aqui.
http://verd.in/cxm9

Isaias Coelho

Isaias Coelho

16 de Janeiro de 2012, 11:48

Nota-se que as vezes a maioria dos problemas que interfere no quesito acessibilidade venha de imposições encontradas no lado backend. O front-end e o back-end devem estar sintonizados e alinhados quando o assunto é acessibilidade. Já presenciei várias vezes meu código html+css não passar nos validadores da W3c após inserção da linguagem de programação. O que falta nesta caso é uma re-avaliação de todo o código, após este processo de automação.